Letônia, a bola da vez
Fuga de capitais, desemprego em massa, empobrecimento e revolta. Abatido pela crise, o antigo “tigre do Báltico” segue o caminho da Islândia — e pode abrir uma espiral de instabilidade na Europa. Leia mais...
A notícia em último lugar!
Fuga de capitais, desemprego em massa, empobrecimento e revolta. Abatido pela crise, o antigo “tigre do Báltico” segue o caminho da Islândia — e pode abrir uma espiral de instabilidade na Europa. Leia mais...
Como fazia todos os dias, acordou cedo, antes do despertador, e colocou-se em frente ao espelho. Olhou para o rosto que lhe parecia cada vez menos familiar, para o cansaço que se acumulava em forma de olheiras, para o cabelo que lhe caía sobre a face sem que ninguém o houvesse tocado.
Escovou os dentes, na mesma ordem em que o fazia sempre: primeiro os de trás, depois os da frente, e bochechou com enxaguante de hortelã primeiro do lado direito e depois do esquerdo.
Fez o café, deu comida ao gato, engoliu dois comprimidos de codeína porque a cama já vinha há tempos acabando com suas costas. Era preciso um colchão novo, e repetia-o em voz alta vezes sem conta há mais de um mês.
Enquanto se arrumava, ouvia notícias ou alguma música. Impressionava-se com as histórias que vinham de lugares distantes, e colocava-se a pensar como seria estar ali, viver ali, andar por algumas das ruas que contam tanto a tantos.
Planejava há muito uma viagem para longe. Já havia juntado dinheiro suficiente, panfletos turísticos o suficiente, pesquisado o suficiente na internet e traçado roteiros o suficiente. Mas não havia tempo agora, afinal o trabalho se acumulava e, se não se livrasse dos papéis sobre a mesa, em breve estariam ocupando toda a sala. O cargo que mantinha em sua empresa não era o que queria da vida, sabia muito bem disso, e logo iria buscar algo que lhe fizesse mais feliz, que lhe fizesse um ser humano mais completo.
Já sabia o que era e em breve abraçaria a idéia. Repetia-o em voz alta vezes sem conta, há mais de dez anos.
Antes de sair, conferiu se todas as janelas e torneiras estavam fechadas. Conferiu a porta duas vezes. Seguiu para o elevador.
E foi para o trabalho, como fazia todos os dias.
...
texto extraído do blog do Emir Sader
Um totem, com dois metros de altura ao meio do caminho. Aos que sabiam - e o tinham como hábito - ler, a situação causava ainda maior estranheza. Diziam letras vermelhas: "Pressione o botão para retirar cem dólares, contudo, um chinês será morto".
Um senhor de alguma idade parou em frente ao botão vermelho e parecia refletir sobre a situação, um pouco depois foi embora coçando a cabeça. Dois ou três jovens agora liam e reliam os dizeres, seus olhos iam do botão até a gavetinha igual à de caixas eletrônicos onde supostamente sairia o dinheiro. Quando já se formara uma grande roda de pessoas envolta do totem, ouvia-se de tudo:
- É pegadinha, olha a câmera lá. - Disse uma senhora
- Será que é de verdade?
- Como assim, a vida de um ser humano por cem dólares?
- Um chinês a mais ou a menos. - Disse um motoqueiro que deu dois passos adiante e pressionou o botão. A máquina gemeu, um barulho de guilhotina ecoou pela estação. Depois a gavetinha se abriu e uma nota verde vibrou aliviada. O motoqueiro estava pasmo, puxou a nota, verificou se era verdadeira e abriu espaço na multidão, mais pasma que ele. Uma vaia se esboçou, mas foi logo amordaçada. A estação virou um caos. Centenas se confundiam um com as pernas dos outros, não se sabia qual era entre tantas a sua mão, todos buscavam o botão. Um visor laranja acima do totem contava, e subia rapidamente. Só se ouvia gritos de discórdia Essa nota é minha, ou esse chinês era meu! E a máquina guilhotinava e agradecia gentil com outra nota, e outra e outra vez.
É a fralda das crianças, pensavam, se eu não pegar esse dinheiro quem vai morrer sou eu, não deve ser verdade. Alguém até soltou: Que negócio da china!
Quando o visor contava dez mil. A máquina se silenciou. Só depois de algum tempo as pessoas se convenceram que a máquina tinha cansado de tanto sangue. E começaram a voltar a suas vidas normais, contudo duzentos reais menos pobres. A culpa repartida não deveria vir cobrá-los.
Estação de trem de Pequim. Oito horas da manhã de uma segunda feira chuvosa. Milhares se aglutinam em busca das escadas rolantes, que muito estressadas a essa hora da manhã costumam parar. Contudo, algo chamava a atenção: Um totem, com dois metros de altura ao meio do caminho. Diziam letras vermelhas: "Pressione o botão para suicidar-se e doar cem dólares para um brasileiro".