quinta-feira, 5 de março de 2009

Faz pensar

Globalização

De João Campos Nunes

Estação de trem do Brás. Oito horas da manhã de uma segunda feira chuvosa. Milhares se aglutinam - ocupando sim, o mesmo espaço - em busca das escadas rolantes, que muito estressadas a essa hora da manhã costumam parar - pura birra. Tudo na mais perfeita desordem. Contudo, algo chamava a atenção:

Um totem, com dois metros de altura ao meio do caminho. Aos que sabiam - e o tinham como hábito - ler, a situação causava ainda maior estranheza. Diziam letras vermelhas: "Pressione o botão para retirar cem dólares, contudo, um chinês será morto".
Um senhor de alguma idade parou em frente ao botão vermelho e parecia refletir sobre a situação, um pouco depois foi embora coçando a cabeça. Dois ou três jovens agora liam e reliam os dizeres, seus olhos iam do botão até a gavetinha igual à de caixas eletrônicos onde supostamente sairia o dinheiro. Quando já se formara uma grande roda de pessoas envolta do totem, ouvia-se de tudo:
- É pegadinha, olha a câmera lá. - Disse uma senhora
- Será que é de verdade?
- Como assim, a vida de um ser humano por cem dólares?
- Um chinês a mais ou a menos. - Disse um motoqueiro que deu dois passos adiante e pressionou o botão. A máquina gemeu, um barulho de guilhotina ecoou pela estação. Depois a gavetinha se abriu e uma nota verde vibrou aliviada. O motoqueiro estava pasmo, puxou a nota, verificou se era verdadeira e abriu espaço na multidão, mais pasma que ele. Uma vaia se esboçou, mas foi logo amordaçada. A estação virou um caos. Centenas se confundiam um com as pernas dos outros, não se sabia qual era entre tantas a sua mão, todos buscavam o botão. Um visor laranja acima do totem contava, e subia rapidamente. Só se ouvia gritos de discórdia Essa nota é minha, ou esse chinês era meu! E a máquina guilhotinava e agradecia gentil com outra nota, e outra e outra vez.
É a fralda das crianças, pensavam, se eu não pegar esse dinheiro quem vai morrer sou eu, não deve ser verdade. Alguém até soltou: Que negócio da china!
Quando o visor contava dez mil. A máquina se silenciou. Só depois de algum tempo as pessoas se convenceram que a máquina tinha cansado de tanto sangue. E começaram a voltar a suas vidas normais, contudo duzentos reais menos pobres. A culpa repartida não deveria vir cobrá-los.

Estação de trem de Pequim. Oito horas da manhã de uma segunda feira chuvosa. Milhares se aglutinam em busca das escadas rolantes, que muito estressadas a essa hora da manhã costumam parar. Contudo, algo chamava a atenção: Um totem, com dois metros de altura ao meio do caminho. Diziam letras vermelhas: "Pressione o botão para suicidar-se e doar cem dólares para um brasileiro".

3 comenta aí, amizade!:

Susanna disse...

Eu sabia que você iria gostar dele!

Beijos!

Fabiano Barreto disse...

Primeiro, desculpe a grosseria de não dizer que foi uma indicação sua. Assim como é importante conceder os créditos do autor, os créditos do indicador são absolutamente legítimos - pena que esqueci (rsrsrsrs)!

No mais, achei o texto do caraio, véi!

Tenho a cristalina consciência de que jamais conseguiria fazer o mesmo tratando de um assunto que me interessa tanto.

Brigadão!

Susanna disse...

Grosseria? Não a vi passar por aqui não..rsrs

Sobre fazer um texto similar... Ah, você é diferente do João. Ele é poeta e cientista social [ou o inverso]; você é cientista social [patriota, que ama o seu país]... da UFF...hahahaha

Brincadeira, marido!

Acredito que o foco e a forma de abordar assuntos é diferente entre você e o João - o que, a meu ver, confere plena noção de complementaridade quanto a leitura de ambos!

Beijos!